Quem assistiu à primeira versão da novela
“Os super-ricos escolhem esportes de alta performance como uma forma de obsessão, mas também pela possibilidade de encontrar um obstáculo, a possibilidade da derrota, algo que caras como o Afonso não conhecem na vida”, diz Carrão, em entrevista ao Estadão.
O próprio Carrão viu isso de perto ao passar, recentemente, um tempo no Vale do Silício, na Califórnia, polo tecnológico mundial, lugar que faz brilhar os olhos de empresários sedentos por grana. “Essa mudança foi uma grande sacada da Manuela. Foi por onde eu entrei no personagem”, avalia o ator.
Para Carrão, não bastava interpretar um praticante de triatlo. Foi preciso viver a experiência. Por isso, tem acordado por volta das 4h ou 5h da manhã para se exercitar, sob a orientação de uma assessoria esportiva. Pelo menos duas vezes por semana, sobe de bicicleta para o mirante da Vista Chinesa, localizado na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.
O ator quer estar pronto para as cenas da novela nas quais participará de competições. De presente, reforçou seu sentido de comunidade, convivendo com outros praticantes do esporte. “Experimento como ator. Não sou um atleta, mas perceber de perto a força da mente deles é um privilégio”, explica. “Correr pelo Rio, nadar nas praias, também é uma forma de ocupar a cidade”, avalia, buscando outro sentido em saltar da cama cedo.
Ele, no entanto, não acredita que o caminho de Afonso nesse remake seja se transformar em um dos galãs da novela – assunto que, garante, nunca foi tabu para ele. “É uma pergunta (sobre ser galã) que fiquei obrigado a responder para sempre. Não sei muito o que dizer. E não saber o que responder foi a armadilha em que caí, que faz com que as pessoas fiquem mais interessadas em perguntar como se isso fosse algo que me deixasse incomodado”, diz, com firmeza.
“Sempre penso no próximo trabalho. Ser galã combina com alguns personagens. Com outros, não. Não fazia sentido pensar se iria ser o galã quando fiz o Henfil (na minissérie Betinho – A Esperança Equilibrista, de 2023). Para mim, isso está bem lá atrás no ofício. Mas, é bom. Posso jogar com isso”, completa.
Carrão acredita, aliás, que a leitura do personagem Afonso, em um primeiro momento, possa levar a um erro de avaliação. “Por ele ser rico, parece um homem que tem de tudo. Mas ele é cheio de buracos. Quase todos eles se dão pela ausência da mãe”.
Essa questão, já explorada na versão original, pode crescer ainda mais nessa atualização da trama. Gilberto Braga (1945-2021) e Aguinaldo Silva, dois dos autores da versão original de Vale Tudo, são, ao lado de Manoel Carlos, roteiristas que melhor escrevem personagens femininos. Só em Vale Tudo são pelo menos sete mulheres fortes, que conduzem a trama: Raquel, Maria de Fátima, Odete Roitman, Heleninha, Solange, Leila e Celina.
Com tanta expectativa, sobretudo em relação a Odete Roitman, interpretada nesse remake por Débora Bloch, qualquer outro personagem, sobretudo masculino, pode ser engolido pela força da vilã, embora Afonso tenha um arco dramático interessante: é ele quem primeiro desmascara a farsa de Maria de Fátima (Bella Campos), sua esposa, com o pilantra César (Cauã Reymond), em uma das cenas mais aguardadas da versão original. “É maravilhoso para um ator saber que haverá essa virada. Fazer quem engana é bom, mas fazer o enganado é ótimo”, diz.
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Escolha dos personagens

Quando conversou com a reportagem do Estadão, Carrão havia começado a gravar as cenas com Débora Bloch. A vilã só entra na trama no capítulo 24, previsto para ser exibido no dia 26 de abril. Mais uma vez: Vale Tudo é sobre personagens femininos que afetam diretamente os homens. E Afonso, como o ator mesmo já disse, é vítima da mãe.
“Penso que Afonso é um cara muito analisado. Que muito cedo foi para a terapia e já sabe o que esperar ou não da mãe. Diferente da Heleninha (Paolla Oliveira), que sempre espera algo da Odete. Afonso sabe que não vem nada, mas é a mãe dele. Quando se encontram, diante da figura poderosa e opressora dela, ele se sente mais inseguro, se defende e, com isso, fica mais parecido com ela”, contextualiza Carrão.
Ter essa consciência de quem são os personagens que vai interpretar – sejam fictícios ou baseados em figuras reais – é algo que Carrão, aos 33 anos, mais de vinte de carreira, presta muita atenção.
No cinema, participou de filmes com forte temática política e social, como Aquarius (2016), Marighella (2021) e Ainda Estou Aqui (2024), vencedor do Oscar 2025 de melhor filme internacional.
“Sou cuidadoso, escolho meus personagens. E tenho consciência de que sou privilegiado. Tenho amigos atores que ficam muito tempo sem trabalhar ou que desistiram da carreira. É bom fazer algo que contém a mesma forma de olhar para o mundo que a sua. Não é coincidência eu ter feito esses projetos”.
Carrão já declarou que o Brasil fez pouco para reparar os efeitos da ditadura militar e para corrigir os danos causados ao povo brasileiro. “Em países vizinhos, os lugares de tortura e morte foram transformados em centros de memória, de reflexão. No Brasil, esses lugares continuam sendo da polícia, do Exército. Isso faz com que nos apaziguemos com a violência que sofremos. E, para alguns, com as violências que cometeram”.
Vale Tudo, em sua essência, traz fortes questionamentos sobre ética, que esbarram igualmente em questões políticas e sociais. “O paralelo que posso fazer com a novela é que, às vezes, somos seduzidos por figuras que não têm o menor compromisso com a ética, com a verdade, com a democracia e com a Justiça. É preciso ter os olhos abertos para essas pessoas que querem nos empurrar para um lugar com mais horror, violência, racismo e tudo mais”, diz Carrão.
Afonso terá um apego pelo Brasil – ele reluta em se mudar para a França, como quer Odete. “Só falta tocar pandeiro”, diz a mãe, em chamada já divulgada pela Globo.
‘Expert’ em remake, além de Vale Tudo, ele esteve em TiTiTi (2010), também em um personagem que foi de Gabus Mendes, e Renascer (2024), e diz que fazer novela “é um grande barato”. “Passo 12 horas por dia com meus colegas de trabalho, por um ano. Levo algo deles no fim das gravações. Um ano atrás estava sabendo tudo sobre o cultivo do cacau (para Renascer), em uma fazenda, em Ilhéus, e, agora, treinando triatlo. Olha que bonito!”, finaliza.