Os dois primeiros da série, agora acessíveis no cinema, são meditações sobre a intimidade humana – em especial nas dimensões definidas pelos título: sexo, amor. Todo mundo acha que sabe o que são…pelo menos até começar a pensar a respeito. Ou a viver experiências que destronam qualquer tipo de certeza. Então, surgem as dúvidas. E a impressão, bastante próxima da realidade, de que nada sabemos de seguro.
Em Sexo, temos dois limpadores de chaminés (a profissão existe na fria Noruega), que começam a conversar num momento de pausa do trabalho. Um deles se diz impactado pela lembrança de um sonho. Na noite anterior, havia sonhado com David Bowie e a maneira como o artista encarava o sonhador, como se este fosse uma mulher. Isso não é nada, responde o parceiro. E conta como, na véspera, havia se envolvido e transado com um cliente. Na realidade e não em sonhos. Não se sentia homossexual de jeito nenhum. No entanto…tinha de admitir que a experiência fora nada desagradável.
Essas histórias de confissões íntimas vão se desenvolvendo. Por exemplo, o segundo dos limpadores de chaminé, o que havia transado com um homem, decide contar o caso à esposa. Acha que é tudo normal e estava sendo honesto ao nada esconder. Mas a mulher entra em parafuso. Chega à conclusão que não conhecia o marido, com que estava casada havia anos.
Em Amor, uma médica oncologista de uns 40 anos trabalha com um jovem enfermeiro em um hospital. A história começa com ela avisando a um paciente de que este deverá remover a próstata. Descreve todas as consequências da cirurgia, inclusive implicações de aspecto sexual. Enfermeiro e médica passam a trocar confidências. De como ele costuma buscar relacionamento com outros homens através de aplicativos. Ela também tem um encontro meio às cegas com um geólogo, mas o caso não parece avançar.
São histórias assim, desenvolvidas em longos diálogos, em filmes que muita gente acha excessivamente falados. De fato, os roteiros parecem ter umas 500 páginas ou mais. Não sei se isso é capaz de perturbar quem tenha abertura para obras diferentes. Achei-os interessantes. São longos, cerca de duas horas, mas não se sente o tempo passar.
São originais na maneira como amor, afeto e sexo entram em consideração em nossos dias e, em especial, nas sociedades nórdicas, tidas como mais abertas e francas sobre esses temas (clichê cuja culpa é de Bergman, um sueco).
Em todo caso, nota-se como a tal franqueza mescla-se a reações opostas, conservadoras, sendo o conservadorismo de natureza religiosa uma espécie de substrato dessas sociedades, o que provoca fricção com atitudes mais liberais.
Mas é, sobretudo, uma certa autonomia do desejo que se impõe. O homem que se julga hetero mas embarca numa relação homossexual. Em Amor, um psicólogo, gay assumido, confessa sentir culpa a cada relação casual. De todos, o mais bem resolvido é o jovem Tor, o enfermeiro que demonstra administrar bem desejo e ternura como termos não-excludentes de uma relação. “É preciso confiar um pouco mais nos outros”, ensina ao desconfiado psicólogo, um homem mais velho e nem por isso mais sábio.
A estética é limpa, como costuma ser em filmes nórdicos. Tudo parece clean, bem desenhado, quase geométrico. Talvez seja natural a existência de retratos visualmente depurados em sociedades de alto IDH, o índice de desenvolvimento humano que mede a qualidade de vida das pessoas nos diferentes países. No entanto, sobre esse bem-estar evidente paira um certo mal-estar difuso, sobre o qual é mais difícil falar. Tal dificuldade talvez peça uma certa comicidade, leve ela também, a colocar um certo distanciamento entre os personagens e seus sofrimentos. Tudo é muito humano, mas é preciso certa maturidade para tirar desses filmes tudo que eles têm para dar.